Projetos tecnológicos ditam o ritmo de expansão de São Carlos

Projetos tecnológicos ditam o ritmo de expansão de São Carlos

Cidade paulista faz da grande densidade de acadêmicos sua principal fonte de atração de investimento.

João Paulo Freitas
jpfreitas@brasileconomico.com.br

São Carlos, no interior paulista, não para de atrair e estimular novos empreendimentos tecnológicos — e de provar que inovação traz também desenvolvimento econômico e social. O motivo é simples: a cidade conta com um ambiente propício para quem quer desenvolver tecnologias e inovar. De acordo como José Octávio Paschoal, presidente do Instituto Inova, associação que congrega 65 empresas,
um dos principais diferenciais da cidade é a elevada densidade de conhecimento, fato que pode ser percebido pelo número doutores do município: há um para cada 160 habitantes.

Com 220 mil moradores, São Carlos possui quatro instituições de ensino superior, incluindo a Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e um do campus da Universidade de São Paulo (USP). Para Paschoal, a elevada quantidade de acadêmicos impulsiona a troca de conhecimentos e a transformação deles em produtos de ponta.

A elevada relação de acadêmicos por habitantes não é o único segredo de São Carlos. A cidade tornou-se celeiro de empresas inovadoras também porque tem conseguido aproximar pesquisadores e empreendedores por meios de seus parques tecnológicos e incubadoras de novos negócios.

De acordo com o Instituto Inova, o município conta hoje com cerca de 240 empresas de base tecnológica. Boa parte delas já garantiu espaço no Parque Eco-Tecnológico Damha. Lançado no primeiro semestre do ano passado, trata-se de um dos mais recentes projetos voltado à criação de mais umambiente de inovação na cidade. Segundo Paschoal, algumas das empresas que estão se instalando no
Damha devem entrar em funcionamento daqui um ano.

Da universidade ao mercado

Além do investimento para atrair e reter empresas, a academia também ajuda São Carlos a colocar seu lado empreendedor em prática. Criada em 2007, a Agência de Inovação da Ufscar é um exemplo de como a aproximação entre universidade e empresas gera bons frutos. “Temos hoje 70 depósitos de pedidos de patentes. Dessas, 11 foram licenciadas. Isso dá uma relação de 15%, patamar elevado tanto nacionalmente quanto internacionalmente”, diz Paulo Ignácio Fonseca de Almeida, diretor executivo da agência.

Para Guilherme Ary Plonski, presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), não se desenvolve um ambiente tecnológico como o de São Carlos da noite para o dia. “A cidade foi uma das seis contempladas pelo então visionário programa de parques tecnológicos brasileiros, criado em 1984 pelo CNPq [Conselho Nacional de desenvolvimento Científico e Tecnológico]”, afirma.

A iniciativa deu origem à Fundação Parque Tecnológico de São Carlos (ParqTec). “São mais de 25 anos de um processo que inclui vários elementos e que acabou fazendo com que a cidade se tornasse um local muito favorável à inovação.” Segundo a Anprotec, o país conta hoje com cerca de 450 ambientes de inovação, incluindo parques tecnológicos e incubadoras de empresas.

Polo universitário atrai e estimula empreendedorismo

Condições propícias para empresas inovadoras chamam empresários para São Carlos

João Paulo Freitas
jpfreitas@brasileconomico.com.br

Em 2001, o engenheiro Clecio Aragão Biscassi decidiu mudar-se para São Carlos. Na época, ele era sócio da Enalta, voltada a tecnologia para o segmento agrícola, e percebeu que Catanduva, o município em que morava, não poderia lhe fornecer a mão de obra especializada necessária para o crescimento de sua empresa, como técnicos e engenheiros. “Viemos para São Carlos por causa das universidades, dos centros tecnológicos e das incubadoras. A intenção foi nos beneficiarmos do ambiente da cidade, que é muito propício à inovação”, diz.

Em 2005, Biscassi deixou a Enalta, mas não São Carlos. Com o fim da sociedade, o empreendedor tratou de criar outro negócio. Batizada de Officetronic, sua nova companhia começou desenvolvendo sistemas eletrônicos para arquivos deslizantes (que atuam na automação do movimento de armários metálicos emempresas). No ano seguinte, o empreendimento ingressou no Centro de Desenvolvimento das Indústrias Nascentes (Cedin), uma das incubadoras da cidade, onde permaneceu até 2010, ano em que faturou R$ 550 mil.

Biscassi projeta que neste ano a Officetronic faturará seu primeiro milhão. Sua aposta para atingir tal resultado está em um sistema de gestão de patrimônio por rádio frequência (RFID, na sigla em inglês),
lançado no final do ano passado. Em 2011, a empresa deve se mudar para uma nova sede, de 200 metros quadrados, no Parque Eco-Tecnológico Damha, onde Biscassi comprou um terreno de mil metros quadrados. “Estou antecipando o pagamento do terreno. Quero usálo como garantia para captar investimentos e iniciar a construção do prédio”.

Além de atrair empreendedores, São Carlos também tem levado pesquisadores ao empreendedorismo. É o caso de Edgar Zanotto, professor titular do departamento de engenharia química da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Pesquisador há 35 anos, ele é um dos sócios da Vitrovita, empresa criada na incubadora da Fundação Parque Tecnológico de São Carlos (ParcTec) há sete.

Mas a trajetória da Vitrovita não tem sido fácil. Um de seus produtos mais mais promissores, uma vitrocerâmica bioativa capaz de eliminar a hipersensibilidade dos dentes, não pode ser comercializada por falta de autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Para obtermos essa autorização precisamos montar uma unidade fabril. A empresa não tem recursos para isso”, diz Zanotto. No momento, a Vitrovita tenta estabelecer parcerias com outras empresas para iniciar a produção do material, que teve sua patente depositada emvários países alémdo Brasil.